Tenho os braços abertos
como Cristo na cruz morreu.
Escuto as palavras do vento:
há um milagre que se me deu!
No ar esvoaço-me agora —
asas plúmbeas que não são minhas.
De Cristo herdei o tronco
na ânsia que para mim vinhas.
Ah! como errei de todo!
Maldita sina que me enganas.
Vazio — agora eu me arrasto
na memória que em mim emanas.
Desci à terra feito arcanjo
e o demónio se me venceu.
A ti — Cristo, — eu implorei
a força que se me perdeu.
Mas foi a fúria que simplesmente ouvi:
imenso trovão que se estilhaçou!
Não tinha eu poder tão grande
como aquele que me cegou.
Peregrino agora na solidão,
neste vasto corpo que se arrasta.
Mas é o amor que me sustenta —
essa sombra que a meu lado se alastra!
Ah! que o fado me protega!
Asas? Já não as sinto,
imenso vazio que se abisma —
entre mim e Cristo:
Deus sabe que não minto,
desde
que terreno me sinto!
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