terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

poema 31


Perco os olhos vítreos

de esperança

nos aneis de fumo

baço,

nas orlas de sangue

vivo,

nos corpos que caiem

a passo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

poema 30


É quente o silêncio

                        das

                        tuas mãos

quando procuro conforto

no teu cobertor,

e um homem pode sempre

                                           dançar

na ânsia que faz o instante,

na ânsia em que fica parado sem voz,

fixo num tempo onde as imagens circulam

                                                                 voláteis

no duro silêncio que jaz

dentro de si.

poema 29


De manhâ,

quando ao corpo retorno

após noites de amor sem bocas esmagadas,

a vitória brusca logo se esvai,

e sangram-me os sentidos

por não ter rasgado ventres de cetim

nem emaranhado em estátuas de carne,

por não ter encardido lábios vermelhos

nem desfraldado as bandeiras do espasmo.

poema 28


Nos olhos do Homem

correm as águas sujas

da amargura,

as amargas falhas

que corrompem a alma.





Nos olhos do Homem

surge a efémera luz

dum fado incerto,

os incertos destinos

que corrompem a alma.





Nos olhos do Homem

cresce o fulgor

da insatisfação,

as insatisfeitas vontades

que corrompem a alma.





Os olhos do Homem

cantam suspiros etéreos

de paixão,

neles ardem fogos imensos

que corrompem a alma.

poema 27


E queria ter-te

entre os meus

                       braços

entre o peito

que fugazmente

                       cresce

estonteado;

entre as mãos

que juntas jubilam

                              histéricas,

histéricas ânsias

de rasgar a seda do teu

                                 corpo,

de rasgar a alma da tua

essência.

poema 26


A luz escorre-se-me

por entre as mãos,

rapidamente.

Ao fundo,

onde o túnel da vida termina,

esparsam-se as asas

do meu sono.

poema 25


Para sempre agora eu me estendo

como se a carne de nada me valesse,

trespasso as correntes que me prendem

e vivo no sangue que me sustenta.





E voam-me os braços ao longo de mim

como se de verdes raízes fossem,

o frio que me corta demasiado —

os ramos que crescem já trespassados.





E vêm agora em silêncio

as vagas do mar que jaz em volta,

na carne já não me ressoa nada —

é antes um mudo grito quem me abraça.

poema 24


a minha mãe







A ti mulher,

A ti que ao prazer me confiaste,

E no ventre do teu refúgio

Onde sempre me acolheste;





A ti mulher,

A ti a quem vingaste a essência

De ser mulher,

E ao mundo pariste

Mundos inteiros de mim;





A ti,

Mulher de doido amor

Que nua do nada me fizeste,

A ti

Eu devo tudo!





Sim, a ti,

Mulher a quem nunca soube falar,

Mãe a quem nunca soube amar.

poema 23


Donde lhe vem

esse sorriso fácil

             que em mim

repousa

             instantes

                           suspirados?





Donde lhe vem

essa voz acesa

             que me faz erguer

em súbitos

             esplendores?





Donde lhe vem

esse corpo eleito

             que me alimenta

os lábios,

             as mãos,

                         o sexo?





Donde vem

                        não sei,

mas na minha

                        aura

                                   de

                                              sonho

reconheço-me infinito para ela...

poema 22


Soltam-se-me

                brilhos rápidos

no acordar

brusco

dos meus olhos

                        nos teus.









E atravessam-me

                     fugazes sorrisos

no respirar

perdido

da tua boca

                         na minha.









E no aconchego

                        quente

da nossa nudez,

vacilo-me então

em rasgos

               de luz,

em arrastos

               de néon.

poema 21


Encantei-me

em ver-te

                           voar.

Essas asas

que me desfraldavas,

na curva

                    do céu

a namorar,

meus olhos fartos

                  nos teus amava,

sonhos irreias

de grinalda

                     e véu.

poema 20


A rasgar-te

        a carne branca,

pedem beijos esses teus lábios

de rosas.







Sangram-me os sentidos

                          e enlouqueço,

a vitória fulva

se em ti...

                       permaneço.







No fundo, quero beber-te

                              em espasmos,

esvair-me na tua boca

esmagada,

sorver-te a ponta

                               dum seio...







Sorver-te a púbis dourada.

poema 19


Vem comigo

numa viagem

                  rente à pele,





fecha os olhos

e lenta,

                     mergulha





em mergulhos

de carne

           viva,





em lençois da cor

da minha pele.

poema 18


Agarrei-me aos sonhos mais estridentes

e o mundo perdeu-se lá fora.





Molhei a espera no ouro do silêncio

e entrei-te pelos olhos mais descarados.





E fixo no tempo do último cigarro

fiquei preso ao sabor do teu corpo.





Abriste-me então o teu abrigo

e eu fui bebendo aos poucos sem pressa.

poema 17


À sempre uma espuma

                       que se me desfralda,

quando para mim

                             olhas,

quando para mim

                             te distrais

dos outros olhos

que para ti

                       olham.

poema 16


Em noites de

                   incandescência

pressentida

                 alheio-me

                               na evasão

de ínfimos

               passos

ao encontro

                  do aperto

do teu sexo

                 em anexo

       ao meu

sexo.

poema 15


Quero amar-te.

Quero beber-te eternamente:

sorver-te os lábios roxos sobre a minha pressão —

mãos que caminham sorrateiramente...



em solidão.







Quero-te agora.

Quero-te a qualquer instante —

dizer-te num afago esvaído

quem me dera ter sido teu amante,



e no teu corpo ter vivido.

poema 14


Tenho os braços abertos

como Cristo na cruz morreu.

Escuto as palavras do vento:

há um milagre que se me deu!





No ar esvoaço-me agora —

asas plúmbeas que não são minhas.

De Cristo herdei o tronco

na ânsia que para mim vinhas.





Ah! como errei de todo!

Maldita sina que me enganas.

Vazio — agora eu me arrasto

na memória que em mim emanas.





Desci à terra feito arcanjo

e o demónio se me venceu.

A ti — Cristo, — eu implorei

a força que se me perdeu.





Mas foi a fúria que simplesmente ouvi:

imenso trovão que se estilhaçou!

Não tinha eu poder tão grande

como aquele que me cegou.





Peregrino agora na solidão,

neste vasto corpo que se arrasta.

Mas é o amor que me sustenta —

essa sombra que a meu lado se alastra!

Ah! que o fado me protega!

Asas? Já não as sinto,

imenso vazio que se abisma —

entre mim e Cristo:

Deus sabe que não minto,



desde que terreno me sinto!

poema 13


Por diante

dos meus olhos,

a razão

esvaice-me,

ininterrupta;







são lágrimas

que vêm

do fundo da alma,

um atentado

em forma abrupta;







deixa-me, então,

voar por ti

adentro,

e esconder-me

nessa tua imensa gruta,

que de tão escura

sobre mim...



me desfruta.

poema 12


Vieste a voar no vento

na ereção alada

das tuas asas,

e nada mais era

senão o meu lamento,

o imenso mar

que abraçavas.







Vieste coberta de abraços

numa apetência histérica

de animal,

e de corpo nu em riste

amei teus braços

onde nenhuma boca

tem sabor igual.







Vieste bem rente junto à terra,

de seios nus

a voarem enlaçados,

e na carne branca

aveludada de teu ventre,

meus dedos ficarem

em ti poisados.

Vieste a cantar num riso mudo

onde jaz o arfar

desta farsa,

e na calma

que me prende a tudo,

em ti me deixo

cair em graça.







Vens de um sonho...

que me despedaça.

poema 11


Antes de ti

em mares estranhos

naveguei,

cruzei oceanos

delicados

nos quais não amei;

transbordei as naus

voláteis

de destroços esquecidos,

ancorei-me à deriva

em portos desertos

buscando beijos

perdidos.







Antes de ti

nas vagas insanas de alguém

eu me perdi,

mergulhei o dorso

em perfumes raros

e em cristais de carne me esqueci;

embebedei-me sem paixão

por curvas frágeis

sem idade,

e ao fado

me abandonei

de viver sem saudade.

Mas foi contigo

que nas malhas do desejo

naufraguei,

afundei-me no musgo

intenso

dum sexo que amei;

subi degraus

dedilhando

o mapa do teu porto,

e sorvi a espuma

que em ti rebentava,

qual refúgio etéreo esse teu corpo!

poema 10


Pela estrada do teu corpo caminham

os dedos que de mim se volteiam,

ansiosas garras de fogo bravo

presas nos lábios que se rodeiam.







Sobre a flor negra do teu sexo me precipito

numa velocidade ébria e possante,

o estorvo meigo que em mim cresce

é como uma língua de carne escaldante.







E por fim os corpos se entrelaçam

numa berma tenra de lençol,

e nos murmúrios longos que se apressam

para ti eu subo em forma de caracol.







E sobre a tua carne eu quero morrer

cravando gritos de fogo bravo,

extasiado num sonho só meu,

para sempre este eterno teu escravo.

poema 9


Penso

que não existo,

porque

se existisse,

eu

não era eu,

era antes

aquele que não sou

e que deveras

quero ser.

E mais digo ainda

que,

por ser quem sou

haveria de gostar de ser

quem não sou,

ou, talvez,

ser quem sou

e gostar de não gostar...



de ser eu.

poema 8


Para que sinta que tu me ouças,

terei de subir bem alto

ao cume de mim próprio,

encher o ar de vários gritos

e gritar bem alto

estes desejos malditos.







Para que diga o que não tenho dito,

voarei em céu aberto

aos confins de ti própria,

perder-me-ei no encanto deste canto

elevado bem ao alto,

este coração que jaz em pranto.







Para provar o que de ti desejo,

serei escravo que se crucifica

desolado na tua carne,

beberei águas de má sorte

e prender-me-ei à tua pele,

nem que me entregue à aterna morte.